19.1.09

sob a clemência do tempo




Uma casa, como que
a aguardar a clemência do tempo
Sem remissão à passagem das horas
Ecoava, sob a luz crua

A portada entreaberta para inundar tudo em redor
Cavava o escuro
As contingências por onde o tempo vagueava
Embebem-se um pouco mais da luz oculta
Entre o Mundo táctil e o sonho de medo

A luz que desdatava o dia
Ainda aguentava tacteando
Enquanto as sombras mais pálidas endurecem
Com o peso… e nada mais
Pudesse o olhar penetrar a fluência da luz
Como os olhos que sondam o passado

Por um momento àquela ausência
Onde se encontra a sua voz autêntica
Não merece nem sua perda nem pose
nem o significado que habita onde o sentido cessou

O escuro consolida-se do verde,
enquanto apaga a janela e o frio aumenta
Aqui, neste ar sob este frio fecundo
Perpetuam esboçadas sobre a mesa
as cadências dessa herança vivida
O espaço é agora tudo o que deve ser


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8.5.08

(in)útil IV

5.5.08

(in)útil III





(em construção)


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1.5.08

(in)útil II



Inútil... mas simplesmente belo
Dissipa-se em luz
Solene
E pouco mais que nada
Na iminente podridão
Que desafia
mas não morre exactamente
na medida em que vive
Contido no olhar

Há um cheiro de abismo
No segredo que este espaço encerra
Uma flor de solidão que brota
Enraizada num tempo suspenso

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27.4.08

(in)útil






O silêncio de pedra e ossos
é agora carne das horas
é tudo aqui
Acode o sono e o retêm
de exaustas e retorcidas memórias

Põe um grito mudo na minha sede
Que a flor de luz dissolve
Numa etérea carícia celeste
Se alonga e circunda triste e intangível

O mesmo silêncio apreensivo
Que se prolonga nas desarmonias
responde no marulhar oco de sombras
e revolve, rompendo
a ardente tonalidade incubada

Numa serenidade estéril
Onde o tempo se entretece
derramando um álgido silêncio penetrante

Entre nós corre o espaço
Que nos limita
o essencial não se guarda nas mãos
jaz inerte
dentro do olhar

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14.3.08

Lento prenúncio







Pelas paredes dentro
meço o tempo
O mesmo que atravessa e sobrevoa
as paredes fissuradas
que sustentam cada dia
que eu assisto perecer


sob um sol sobranceiro
os meus olhos invadem os interstícios porosos
que já não escolhem a idade à medida
revivem debotados… ao acaso
aninham-se bordejando secretas passagens

Despojado
Persiste fascinante
Numa contínua e errática certeza

Lento renúncio
Atado ao destino
Suplico-lhe que se sustente
à suave morte em cena
diante dos olhos inclusos

Viverá ininterruptamente das memórias
… suspenso de eternidade

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5.11.07

passos estilhaçados



Tristeza estéril das fissuras
Alongavam em murmúrio pelo chão
Onde a memória se aferventa

No coração dos dias estilhaçados
A limpidez sombria
Nítida
No degrau mais estilhaçado
Assenta a frieza exacta

no caminho esgotado
dos passos que o feriram
pousa o olhar que assiste
ao tempo que se desenha parado

A povoar este caminho
Ardia a solidão
Suspensa
Vertida como um plano de sombra

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